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Cynefin na criação de produtos digitais

Tempo de leitura: 15 minutos

Na visão de Karina Hartmann, Digital Product Manager da SoftDesign, estamos passando por um momento único na área de produto: há uma revisão constante de conceitos, novas conexões entre teorias e descoberta de ferramentas emergentes. Ainda que, por um lado, seja empolgante trabalhar em uma área tão viva, essa efervescência se reflete muitas vezes em uma sensação de insegurança nas pessoas que trabalham com produto – Product Managers, Product Owners e Product Designers.

A ânsia por colocar em prática todas as metodologias e frameworks tidos como mais atuais na comunidade de produto pode acabar nos desviando do real objetivo do nosso trabalho, que é criar valor. Nesse sentido, no último encontro da nossa Comunidade de Prática de Produto, Karina propôs um debate sobre o uso do Cynefin para ajudar nesse desafio.

O que é Cynefin?

Cynefin é um framework conceitual criado dentro da IBM (1999) para resolver uma angústia sobre como as decisões eram tomadas naquela empresa. Ele não é em si uma ferramenta, mas sim um modelo para organizar nossa mente, que proporciona formas mais claras e objetivas para pensarmos sobre cada problema que enfrentamos.

Aplicando o conceito no dia a dia de Product Owners, o Cynefin ajuda no desafio de lidar com a enxurrada de ideias, problemas e processos. Assim, é possível maximizar o valor de cada entrega sem sentir-se perdido entre tantas novas técnicas que surgem a cada ano.

A base do framework é a divisão do espaço dos problemas em quatro quadrantes principais: domínio das coisas simples ou óbvias, domínio das coisas complicadas, domínio de coisas complexas e domínio de coisas caóticas. Há ainda mais algumas nuances, mas neste artigo focaremos nos quatro principais, que podem ajudar a resolver os problemas mais latentes no que tange ao desenvolvimento de produtos digitais.

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Adaptado de http://prev.cognitive-edge.com/.

  1. 1. Coisas Simples ou Óbvias

Quando falamos do quadrante das coisas simples ou óbvias, estamos nos referindo àquelas que são fáceis de compreender e estáveis, ou seja, que não sofrem mudanças constantes. As relações de causa e efeito são simples de entender nesse tipo de problema: ao tomarmos a decisão correta, sabemos o que irá acontecer, pois a resposta é sempre igual. Por isso, é fácil estabelecer uma melhor prática para resolver esse tipo de problema, que possui uma solução única.

Claro que é possível nos depararmos com situações em que o responsável por tal problema ainda não tem o conhecimento sobre a forma ideal de resolvê-lo, mas ainda assim ela existe e é óbvia para quem domina o assunto abordado. É o caso de processos industriais, como em uma fábrica de refrigerantes, por exemplo. Cada parte do processo já é conhecida e é possível repeti-la facilmente.

  1. 2. Coisas Complicadas

Se não temos domínio sobre o nosso problema, mas sabemos o que precisamos buscar para solucioná-lo, estamos falando do quadrante das coisas complicadas. Neste espaço, colocamos as questões cuja relação de causa e efeito não dominamos, e por isso precisam ser analisadas por um especialista no assunto.

Diferente das coisas óbvias, não há uma única forma de atingirmos o resultado desejado, logo, problemas do quadrante complicado não possuem um único caminho a seguir, mas sim boas práticas que servem como inspiração para se alcançar o objetivo. É como em procedimentos médicos, em que cada caso é avaliado conforme o paciente e um conhecimento adquirido previamente será aplicado.

  1. 3. Coisas Complexas

Coisas complexas são aquelas em que as relações de causa e efeito só conseguem ser estudadas quando olhamos em retrospecto. Em dado momento, depois do evento ocorrido, pode parecer óbvio, mas ainda assim não seria um resultado possível de se prever de antemão. Por isso, não existem boas práticas para resolver causas complexas, é preciso aprender padrões ao longo do caminho para tentar solucionar esse tipo de problema.

Podemos ter algum conhecimento sobre aspectos de forma isolada, mas a interação entre as partes do problema só será entendida quando encaixarmos cada uma destas variáveis independentes. Quando não sabemos exatamente o que buscar, torna-se quase impossível encontrar referências no assunto. É o que acontece em estudos sobre alterações no meio ambiente, ou quando nos deparamos com uma doença nova. Os resultados anteriores não garantem os resultados futuros.

  1. 4. Coisas Caóticas

No último quadrante, temos o domínio caótico, que se refere aos acontecimentos tão repentinos que não nos permitem entender o cenário antes da tomada de decisão. É qualquer situação totalmente imprevista e urgente, quando estamos mais preocupados em salvar vidas, por exemplo.

É o que acontece em catástrofes naturais ou atentados terroristas em que, mesmo havendo especialistas no assunto e práticas recomendadas, quem detém este conhecimento não está disponível no exato momento do evento. Por isso, as pessoas envolvidas precisam tomar as primeiras decisões de forma emergencial, tentando conter a situação de imediato.

As respostas mais adequadas

Já estamos habituados com a ideia de que problemas diferentes exigem soluções diferentes; e a prova disso é que costumamos desconfiar quando alguém apresenta uma solução muito simples ou óbvia para um problema que consideramos complexo. O Cynefin facilita a organização desse conceito, indicando como devemos nos portar quando nos deparamos com situações de cada quadrante:

  • Para coisas simples: primeiro percebemos, depois categorizamos o problema e então respondemos conforme a melhor prática já estabelecida;
  • Para coisas complicadas: após perceber, é preciso analisar o problema para escolher a boa prática mais aplicável;
  • No caso do complexo, o ato de perceber deixa de ser a primeira ação a ser tomada e dá espaço para o explorar. Em geral, problemas complexos precisam de experimentação, pois há necessidade de primeiro coletar informações e olhar para os padrões pré-existentes, antes de perceber exatamente o que precisaremos analisar;
  • Em eventos caóticos, a ação assume a primeira posição. Primeiro tomamos uma atitude para garantir que não estaremos correndo riscos, para só então perceber o acontecido e organizar uma melhor resposta.

Aplicação do Cynefin na criação de Produtos Digitais

No desenvolvimento de produtos digitais, é muito raro trabalharmos com cenários óbvios ou caóticos. Por isso, em sua apresentação, Karina focou-se nos quadrantes Complicado e Complexo, com o objetivo de se aprofundar em como o Cynefin pode ajudar as pessoas que trabalham com produto.

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Criação própria.

O Cynefin e a Ideação

Quando iniciamos a ideação de um produto, estamos em um cenário mais complexo. Não sabemos se nossa ideia faz sentido, se é isso mesmo que deveríamos estar criando para resolver as dores dos usuários. Na extremidade entre os quadrantes complexo e caótico, queremos ter menos incertezas, ainda não estamos preocupados em entregar o produto.

Neste momento, não faz sentido discutir produtividade e eficiência, temos que falar em aprendizado. Trazendo para a realidade de uma startup, por exemplo, essa é a fase em que queremos validar o problema e suas opções de solução. Por isso é tão pertinente aplicar ferramentas de Design Thinking e ciclos de testes, que favorecem a aprendizagem; e nos apoiar em teorias de inovação e disrupção. Métodos que tenham a ver com inovação, criatividade e aprendizado são muito úteis nessa fase.

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O Cynefin e a Validação

Conforme nos encaminhamos para um cenário menos complexo e mais complicado, chegamos no momento de validar o product-market fit. Isto é: evoluir aspectos do produto que o tornem aderente ao mercado que queremos atingir. Aqui, faz sentido o uso de métodos que já não são mais tão abertos, mas que ainda absorvam mudanças e adaptações, apoiando o aprendizado sobre os experimentos que estamos realizando.

É o caso de utilizarmos Scrum ou outros Métodos Ágeis e testes com usuários. É importante lembrar que provavelmente não conseguiríamos utilizar esses métodos em fases anteriores, pois quando não sabemos para onde ir, nossos esforços para estruturar o trabalho provavelmente não trarão o resultado esperado.

O Cynefin e o Refinamento

Uma vez alcançado o campo complicado, é a hora de usarmos métodos mais analíticos, que irão permitir o refinamento da solução. Somente neste momento vamos começar a nos preocupar de verdade com escala e sustentação do produto digital. Saímos de uma mentalidade de experimentação para dar foco a uma mentalidade de Análise de Sistemas ou Arquitetura de Software, onde buscamos as melhores práticas para lidar com problemas bem definidos.

Porém, sabemos que hoje em dia os produtos nunca chegam à estabilidade. Mesmo depois de atingirmos a escala, e termos a sensação de que algumas partes estão estáveis (domínio complicado), continuarão surgindo novas ideias, desafios e oportunidades de negócio para incrementá-lo, nos levando de volta para o universo do complexo.

O Cynefin e o Contexto

Utilizar o Cynefin para organizar os problemas que precisamos resolver não significa tentar enquadrar todo o nosso produto em um único quadrante. Algumas partes da nossa solução podem ser complexas e outras podem chegar até o óbvio.

Além disso, quando falamos em desenvolvimento de produtos digitais, temos diversas perspectivas sobre o mesmo problema – algumas partes podem ser simples da perspectiva de negócio, mas complexas do ponto de vista técnico ou de usabilidade, e vice-versa.

O Cynefin também é contextual, ou seja, uma situação que pode ser óbvia para alguém, pode ser complicada para outro. Quando atuamos com um campo de conhecimento totalmente diferente do que estamos habituados, pode ser que um problema tenha uma solução simples, mas nós ainda não a conhecemos – não faz parte do nosso repertório. Nesse caso, precisaremos recorrer a um especialista que nos ajude a criar uma análise para a tomada de decisão.

Como aplicar Cynefin no dia a dia de Produto

O trabalho de discovery começa com um input – um problema, uma dificuldade, uma ideia, etc. A partir daí o time de produto deve buscar enquadrar a situação no Cynefin, para poder escolher as ferramentas mais adequadas. Dividindo a grosso modo:

  • Alta incerteza de valor, negócio, usabilidade ou viabilidade – métodos que foquem em aprendizado;
  • Média incerteza de valor, negócio, usabilidade ou viabilidade – métodos que foquem em experimentação;
  • Baixa incerteza de valor, negócio, usabilidade ou viabilidade – métodos que foquem em análise, embasados em melhores práticas.

As técnicas a serem utilizadas dependem muito do seu contexto, e do que você já tem na sua ‘caixa de ferramentas’ (background). Exercitamos na tabela abaixo a classificação de algumas ferramentas para ajudar a materializar essa proposta:

 

Alta incerteza /
Complexo
Média incerteza /
Complexo~Complicado
Baixa incerteza / Complicado
Risco de valorTécnicas de Design Thinking

Pesquisa ‘etnográfica’, qualitativa, em profundidade

Lean Startup e MVP No-Code/Low-Code

Benchmarking

Métodos de desenvolvimento com ciclos de feedback rápido (Scrum, Kanban)

Métricas de produto

Risco de negócioMVP

No-Code/Low-Code

Métodos de desenvolvimento com ciclos de feedback rápido (Scrum, Kanban)Usar melhores práticas da área de negócios.
Risco de usabilidadeExperimentação rápida com protótipos.Métodos de desenvolvimento com ciclos de feedback rápido (Scrum, Kanban)

Métricas de produto

Usar as melhores práticas da área de usabilidade.
Risco de viabilidade técnicaProva de Conceito (PoC)SpikeUsar as melhores práticas da área técnica.

 

Então, por exemplo: se estamos em um cenário no qual queremos solucionar o problema de um usuário, mas não temos conhecimento aprofundado sobre o mesmo e não sabemos qual a melhor solução para resolvê-lo, nosso risco de valor se encaixa no quadrante Complexo do Cynefin. Para esses casos, então, Product Owner (PO) e Designer precisarão escolher técnicas que favoreçam, antes de tudo, o aprendizado – como pesquisas qualitativas em profundidade (entrevistas, observação).

O melhor método para cada etapa

O principal objetivo de utilizarmos o Cynefin na tomada de decisões, segundo Karina, é permitir que a pessoa de produto consiga não só entender os melhores métodos para cada etapa, mas também esteja tranquilo sobre porque aplicar ou não aplicar cada ferramenta. É importante termos consciência do contexto e da perspectiva em que estamos atuando, ou podemos investir esforços de forma totalmente improdutiva.

Sem essa estruturação do pensamento, correremos o risco de aplicar teorias e frameworks apenas por modismo: “uma coisa que faz nós, pessoas de produto, sofrermos bastante, é uma glamourização de algumas ferramentas, acreditar que existe uma separação entre métodos inovadores e práticas ultrapassadas, que ninguém mais deveria fazer. A ideia do Cynefin é justamente trazer tal racional de que não há ferramentas glamourosas,– o que há são técnicas diferentes para cada tipo de situação”, conclui.

Em dúvida sobre quais técnicas usar na criação do seu Produto Digital? Entre em contato conosco que nosso time de especialistas pode lhe ajudar!


Sugestões ou críticas para nosso blog? Entre em contato pelo endereço mkt@auxysoft.com.

Foto do autor

Bruna da Silva Ricardo

Product Owner na SoftDesign, Relações Públicas com especialização em Gestão de UX Design, atua no gerenciamento de produtos digitais desde a ideação até a gestão de roadmap e go to market.

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